Quadro Princesa Isabel

Quadro em cedro que retrata a visita da Princesa Isabel à Cristina em 1868

A idéia de retratar a chegada da Princesa Isabel a Cristina é muito antiga, tornando-se mais próxima da realidade quando, em 1934, o prefeito desse município Antônio Cândido de Toledo solicitou que fosse feito o desenho, bem como o respectivo orçamento. Naquela data o trabalho foi orçado em 5 contos de réis, mas por dificuldades financeiras não pode ser executado.

Tendo o autor, João Honorato Ferreira, se transferido para o Rio de Janeiro em 1935, levou consigo o desenho e o conservou com devido cuidado apesar das sucessivas mudanças de residência. O prefeito Miguel Aley tendo sido informado de que já existia um desenho sobre o assunto entrou em entendimentos com o artista, conforme ofício nº 063/77 de 02 de abril de 1977. Decorrido um ano e meio, no dia 04 de outubro foi iniciado o trabalho, tendo sido concluído em 1º dezembro de 1979.

Descrição do Quadro

Descrição do Assunto: No centro, em primeiro plano, estão representados: a Princesa Isabel, o Conde D'Eu e o Conselheiro Joaquim Delfino, ladeado por dois Dragões da Independência. Em segundo plano estão o Sr. Francisco de Paula Bueno Mendonça de Azevedo, ao lado de seu cavalo; o Dr. Luiz da Cunha Feijó, médico da Princesa; apeando, o Coronel Sylvestre Dias Ferraz e o Sr. José dos Reis Silva Rezende. Em planos mais afastados estão o Sr. Comendador João Carneiro Santiago, que foi o primeiro agente executivo, cargo que corresponde hoje ao do prefeito; o Sr. Manoel Carneiro; o Sr. Comendador Francisco Carneiro Santiago e outros. A liteira que transportou está de acordo com a original existente no museu de Petrópolis; e por falta do original, a banda de música apresenta os instrumentos prováveis da época.

Descrição da Moldura: No centro, ao lado, alegoria à História, ladeada pela Geografia (globo terrestre) e a Cronologia (ampulheta), todos se sobrepondo à posição geográfica da sede do município. Nos cantos superiores está representado um casal da tribo dos Puris, primitivos habitantes da região, que era o Sertão da Pedra Branca. A figura masculina tem na mão esquerda um ramo de café frutificado e na direita uma placa com os seguintes dizeres:

Curiosidades Históricas:

Da celebração da primeira missa em Cristina e assinatura da Lei Áurea, passaram exatamente 114 anos. 13/05/1777 a 13/05/1888.

Da partida da PRINCESA ISABEL do Rio de Janeiro com destino a esta viagem, até a queda do Império, passaram 21 anos, 14/11/1868 a 14/11/1889.

O cristinense que chegou a Presidente da República nasceu em 1868.

A figura feminina apresenta na mão direita um ramo de fumo florido, e na esquerda uma placa na qual é esclarecida como era feita a viagem na época, do Rio de Janeiro ao sul de Minas.

"Em 1868, a viagem a Caxambu era feita de duas maneiras: na primeira, partia-se da Corte no trem expresso da estrada Dom Pedro II e chegava-se à Estação da Boa Vista (Engenheiro Passos). Almoçava-se no Hotel dos Ferraz e Irmãos. Em seguida, tomava-se uma liteira até o Hotel Palmital. A próxima jornada era para o Hotel da Floresta, onde pernoitava-se, para no dia seguinte, prosseguir viagem e almoçar no Hotel e São José do Picu. Depois de uma parada no Arraial do Capivari, pernoitava-se em Pouso Alto. Já no terceiro dia de viagem, retomando o caminho, para então chegar a Caxambu às 16 horas."

Vem a seguir as armas do Império, com 19 estrelas, representando as 19 províncias da época e doze medalhões ligados à história do Município. O primeiro Medalhão nos mostra a capelinha da Glória, onde no dia 13 de maio de 1774, foi celebrada a primeira missa em Cristina, pelo padre José Dutra da Luz. O segundo apresenta uma pomba voando, símbolo do Divino Espírito Santo, para lembrar a elevação do Município à paróquia com denominação de espírito santo dos Cum-quibus, pela Lei Provincial nº 205 de 07 de abril de 1841. A Imperatriz Tereza Cristina está representada no terceiro medalhão, pelo fato de Ter dado seu nome a esse município com a denominação de Vila Cristina, por força da Lei Provincial nº 485 de 19 de junho de 1850. No quarto medalhão vemos uma coroa mural fazendo lembrar que, em 15 de julho de 1872, o Município passou à categoria de cidade pela Lei Provincial nº 1885. Em Heráldica, arte ou ciência que trata dos brasões, a coroa mural significa "cidade". O emblema do Direito, que aparece no quinto, nos diz que em 1876, pela Lei Provincial n°375 Cristina passou à Comarca.No próximo medalhão está uma homenagem ao Dr. Sylvestre Dias Ferraz Júnior, por tudo quanto ele fez para a Estrada de Ferro Sapucaí passasse me Cristina. No centro inferior da moldura está o Sr. Luiz Barcelos de Toledo, por ter sido um dos mais se interessou pela história de Cristina, ladeada por figuras alegóricas, relacionadas com a fartura do Município. Continuando, vem o sétimo medalhão que representa uma locomotiva lembrando a inauguração do trecho de Soledade de Minas à Cristina, no dia 15 de março de 1891. O Grupo Escolar Carneiro de Rezende, inaugurado à 09 de agosto de 1910, no qual o autor aprendeu as primeiras letras e conserva ainda na memória em saudade, figura no oitavo medalhão. Já no nono, registra a data de inauguração da luz elétrica, com lâmpada e a pitoresca usina, no dia 24 de agosto de 1910. No décimo medalhão, figura o Dr. Delfim Moreira da Costa Ribeiro, que tendo nascido na data da chegada da Princesa Isabel a Cristina, mais tarde chegou à Presidência da República. No penúltimo, vemos um reprodutor da raça Gir, simbolizando a pecuária do Município. Representa a inauguração da Cooperativa Agropecuária de Cristina, em 1º de maio de 1967. O décimo segundo e último medalhão nos mostra o Fórum novo, inaugurado no dia 18 de janeiro de 1977.Completando os ornatos vêm as armas da República com a legenda REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, conforme alteração feita pela Lei nº 5.443, de 29 de maio de 1968

Análise do Bem Cultural: Aparentemente o quadro está bem conservado. O que está faltando é uma análise mais profunda de um profissional da área, pois a madeira está apresentando algumas rachaduras.
Biografia do Autor: João Honorato Ferreira

Nasceu no dia 26 de junho de 1905, na Fazenda do Campo, hoje, município de Soledade de Minas, onde foi batizado pelo vigário José Silvério Nogueira da Luz, tendo como padrinhos: José Ferreira de Souza e Ana Zeferina de Souza. Foi registrado no cartório de Cristina, no dia 21 de agosto por Cesarino José de Souza. Viveu os primeiros anos na Fazenda da Pedra de propriedade do Sr. Albertino Dias Ferraz. Mudou-se depois para a Fazenda da Barra Mansa, de propriedade do Sr. Aureliano Ribeiro. No final de 1910, mudou-se para o sítio do Cruz, de propriedade do Sr. José Joaquim de Carvalho, onde seu primeiro trabalho era tocar o cavalo na pipa do olaria e se distraía fazendo bonequinhos de argila. No princípio de 1913, foi matriculado no Grupo Escolar, tendo como professora a Sra. Margarida Leite da Cunha Camargo e como colega de carteira Pedro de Souza e foi aprovado com distinção. Nesse ano, o seu segundo trabalho era vender verduras nas ruas da cidade. No segundo ano, teve como professor o Sr. Bernardino Paulino de Araújo e como colega de carteira, Ibraim Pinto da Fonseca. Foi aprovado simplesmente. Tendo perdido a mãe no dia 12 de março de 1914, teve que se mudar para a cidade, vindo a morar de favor na casa do Sr. Sebastião Alves Ribeiro. No dia 4 de fevereiro de 1915, foi trabalhar na Fazenda da Glória para o Sr. Pedro Carneiro de Rezende, como ajudante de retireiro e quando trabalhava como candieiro ganhava 500 réis por dia. Neste período, vivia sempre munido com um bom canivete cortando e recortando quantos pedaços de madeira que encontrava. Na cidade, nas horas de folga, desenhava a pedido dos colegas, as cenas mais emocionantes dos filmes de série daquela época. No dia 11 de junho de 1921, transferiu-se para a cidade de Itajubá onde trabalhava durante o dia na pensão de sua madrasta e à noite na fábrica de tecidos Codorna, seção de fiação. No dia 1º de outubro de 1921, entrou como aprendiz para marcenaria e tornearia do Sr. Rafael Barone, onde aprendeu a profissão de torneiro em madeira. O filho mais velho do patrão, Roque, era entalhador, mas quando o via pegando em suas ferramentas dava-lhe sarrafadas. Quando em 1923, havia conseguido o ordenado de 2000 réis por dia, obteve proposta do Sr. Simão Lerner para trabalhar em sua oficina, ganhando 4500 réis por dia. Pouco depois, passou a trabalhar na indústria Pereira Rennó com o ordenado de 5500 por dia. Nesse período, sob orientação do saudoso mestre José de Souza Rezende, entalhou todos os ornatos dos dormitórios para o Grande Hotel, na época, o maior da cidade. Por nova proposta do Sr. Simão Lerner, voltou a trabalhar em sua oficina como torneiro e entalhador, ganhando 7000 réis por dia. Foi quando se casou com Damascena Alves Moreira, no dia 19 de dezembro de 1925. Dessa data em diante começou a se interessar pelo estudo de desenho, principalmente no tocante à perspectiva. Pouco depois, passou a trabalhar na marcenaria do Sr. José de Souza Rezende, onde entalhou todos os móveis do Dr. João Braz, os móveis do Dr. Renato Pereira, as instalações do Banco do Brasil de Itajubá, as instalações para a Associação Comercial de Itajubá e o quadro de formatura para o ano de 1931, para o então Instituto Eletrotécnico de Itajubá. Nessa ocasião ganhava 10 mil réis por dia. No dia 5 de julho de 1932, mudou-se novamente para Cristina onde trabalhou na oficina do Sr. Benedito Garcia. Nas horas de folga fazia sempre alguma coisa. Foi quando se dedicou a esculpir retratos em madeira, tais como o do Dr. Silvestre Dias Ferraz, o do conselheiro do Império Joaquim Delfino da Luz, o do Dr. Benedito Valadares, o do Sr. Luiz Barcellos de Toledo e outros cristinenses. De todos, o mais notável foi o do escritor Humberto de Campos, encomendado pelo Sr. Francisco Toscano e oferecido ao então Clube Recreativo de Cristina. Este retrato foi levado por Sr. Carlos Azevedo ao Rio de Janeiro e publicado no semanário: A noite ilustrada, e deu motivo de colocação do autor em uma das maiores fábricas de móveis. No dia 24 de julho de 1935, mudou-se para a antiga capital da República. Depois de Ter trabalhado em três boas fábricas de móveis como entalhador, ingressou no dia 12 de maio para o SENAI, como instrutor de entalhação, onde trabalhou até o dia 16 de dezembro de 1953. A seguir, começou a restauração da igreja do Mosteiro de São Bento, onde executou o maior volume de obras de escultura em entalhação em sua vida. Só a restauração da sacristia levou mais de dois anos. Artistas dos séculos passados, destacando-se entre eles: Frei Domingos da Conceição. Tendo se aposentado no dia 1? de outubro de 1971 com 50 anos exatos de profissão e como não havia terminado a restauração, foi então convidado por Dom Abade e Dom Marcos Barbosa a continuar a restauração, ganhando o triplo do ordenado. Foi quando conseguiu comprar a casa em que reside. A seguir, foi resolvida a execução do quadro histórico para a Prefeitura de Cristina: A CHEGADA DA PRINCESA ISABEL, cujo desenho fôra feito em 1934. Foi entalhado para a mesma Prefeitura, o Brasão da cidade, oficializado no dia 19 de julho de 1959 e um quadro representando personagens contemporâneas da Câmara Municipal. No dia 26 de junho de 1985,, ao comemorar os oitenta anos de idade, teve a satisfação de fazer a entrega oficial do conjunto da VIA SACRA à Paróquia de Cristina. Essa encomenda fôra feita em 1935, mas por vários motivos só foi realizada há 30 anos depois. Neste espaço de quase 70 anos, esculpiu cerca de duas dezenas de imagens para igrejas e residências particulares e mais de uma centena de retratos em alto relevo. Para finalizar teve a satisfação de estar presente à Exposição realizada no Salão Nobre da Câmara Municipal de Cristina, em 1987, onde pela primeira vez pode ver reunidos 145 trabalhos seus, alguns dos quais, executados em épocas bem amargas de sua vida.

Filiação: Nasceram em Itajubá os três primeiros filhos: Nelson, em 8 de março de 1927; Niceas, em 4 de janeiro de 1929 e Ruth, 16 de janeiro de 1931.

Em Cristina: Newton, em 21 de março de 1933; Hebe, em 2 de julho de 1936.

No Rio de Janeiro: Dyrce, em 3 de novembro de 1939; Regina, 10 de maio de 1952 e João, em 30 de agosto de 1953.